"Vivo aqui na talvez primeira solução de vida de qualidade para ricos desta cidade do Porto, desenhada com o cuidado e a atenção ao detalhe que os anos a seguir não conseguiram replicar. Fui abraçado pelo incessante trânsito de quem por esta cidade passa e se redistribui. Informaste-me que durante bons anos toda esta qualidade foi ilegal . É justo. Assim esta minha separação, assim o primeiro apartamento em que vivi com alguém, na idade da pedra polida. Moras aqui bem perto, mas a milhas náuticas da agora minha casa. E não moras. Chamas-lhe o teu “domicílio fiscal”. Com esse teu peculiar sentido de humor, que rima com o teu andar cuidado como que sabendo que alguém vigia, mais um disfarce teu. Ou é apenas o difícil diálogo que te acontece entre os teus pés e a tua coluna?
Descobri então este apartamento que arrendei. Tem um espaço aberto a norte e poente onde bate o sol ao fim da tarde, por entre as folhas de umas árvores enormes que, do chão, três pisos mais abaixo, chegam até cá cima e me entram pelo terraço adentro. Vivo num hall de quatro apartamentos dos quais dois estão desocupados, e o terceiro alugado a gente que pouco pára por aqui e já me informou que o seu arrendamento – olha, também – é uma solução temporária… mas viver não é em si uma solução temporária? Depois de um mês de hotéis, guardo do Hotel Douro, ali na Boavista boas recordações. Só para citar e dar exemplo. Vida de hotel…
Comecei aqui então a recolher e distribuir pelos espaços as coisas que afinal me definem. Somos as coisas que trazemos connosco quando estas coisas acontecem. Um filme recente com o Clooney tratava disto, ou talvez não. A minha lógica de mochila será um pouco diferente, ou outra a metáfora. Curiosamente distribui, acarinhei e usei para decoração presentes e coisas e objectos que levavam anos encaixotados, perdidos, desprezados. Oferecidos vários por quem abandonei. Mas eu sabia, eu sabia que aquelas coisas iriam um dia ser importantes para mim. Seria não só eu a saber? Hoje fazem parte desta nova paisagem que criei. Sei que este apartamento por outro lado é uma afirmação, um discurso que eu faço contra o meu passado, e contra este presente anulado que tu és morando a cem, duzentos metros de mim. Quem aqui venha olhará para as minhas soluções (!) decorativas, pueris umas, adolescentes outras, e, antes de se lançar num protocolo de desqualificação, perguntará – porque nunca disseste a quem de direito que querias as coisas assim? Primeiro, a quem de direito é uma expressão que abomino. Segundo, a resposta estará algures em cima de muitos papéis, num qualquer escrito naquela letra ilegível que uso, ou se calhar naquela tinta transparente que, eu sei, também uso, mas uma pequena parte estará também no facto de, há muitos muitos anos, eu ter tido um apartamento onde morei sozinho algum tempo. Um amigo meu desse mítico espaço e tempo foi meu doente há poucos meses, e, simpático e predisposto a isso por real amizade e pela sua saúde estar nas minhas mãos, disse que aquele “apartamento” de então tinha sido para ele uma “referência”. Ele é casado com a namorada de então, e tem duas filhas. Enfim, é um bom rapaz… portanto, “referência”? Passaram demasiados anos, manhãs e tardes, e noites também.
O que se perdeu nestes anos? Nada, nada. Palavra que responde sempre a tudo que tão usada se torna. Tive bastante cuidado em não repetir as piadas decorativas de há quinze anos. Os estores sem janela por trás, os quadros pintados por mim à pistola com recortes do “Expresso” a decidir o tema… Mas este é agora o meu muito amado ninho deste difícil momento em que estou. Nas enésimas visitas a apartamentos que fiz a malta das imobiliárias julgava agradar-me dizendo “todo mobilado”! Aí já a minha cabeça estava a pensar “próximo!”. Construi-o contando os tostões. Afinal, agora estou a pagar duas casas, como que um imposto que se paga por ser livre. Consigo. Sou um privilegiado, admito. Chego aqui e sinto-me em casa minha. Em nenhum outro lado isso hoje acontece.
(...)
Portanto a história é esta, e contada nestas fotografias que coloco à avaliação de quem de direito. O fazer de uma casa. De uma vida. O refazer desta, melhor dito. Que aquela de novo se fez. Objectos. Olhos que vêem e não vêem nada. Que voltam a tentar. Que se fecham e só voltam a abrir no dia seguinte. E ainda não vêem nada. Para isto não era necessário grandes meios técnicos, disponíveis mas não necessários, assim me pareceu. Foi dada prioridade a uma mensagem – ahah, a mensagem! -, que explicitei no que escrevi antes. Falei de um ano que passou ou talvez nem um ano, nove meses. Saltemos por cima da metáfora fácil. O trimestre de que primeiro falei sendo o terceiro, primeiro, como escolher? A ordem das fotografias não é temporal. O que eu escrevi acima também não é denotativo e objectivável. Vão ter de acreditar em mim. E saltei para trás e para a frente. Disse “não vou falar mais disto”, e falei. Disse “vou esquecer”, e lembrei. Contei a história de pessoas vivas, embora a morte fosse invocada mais do que uma vez. Como disse o Marquês de Sade, citação que abre um romance que agora estou a ler, “je ne sui pas heureux, mais je suis bien.” Quando disse isto, estava preso. Estas fotografias tratam da construção deste estado de bem, escasso, instável, mas ao qual acedi, e é, hoje por hoje, onde estou. A morada que vos cedo para correspondência devia também dizer isto como extra, a substituir aqueles três últimos algarismos do código postal, por exemplo.
Havia aquele filme sobre uma guerra, as guerras, “Vem e vê”. Tal qual. Obrigado pela VISÃO ATENTA.
Seis mil palavras? Não. Quatro mil seiscentas e doze… treze.
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