sábado, 2 de outubro de 2010

Dos casamentos já tidos algum apontamento.

A cada casamento a sua cerimónia. Cerimónia diz-se da pausa e da hesitação que se faz antes de comer. Casar também é um pouco isto, não?

O casamento não é a sua cerimónia. É a sua ilusão. Ilusão é outro nome dado à magia, ao truque. E há passes de magia que ficam no nosso olhar para todo o sempre. Não me restam fotografias de nada. Não importa. Trago comigo imagens de truques que foram feitos e onde o povo, a plebe, esses que hoje me declaram "louco" aplaudiram a bom aplaudir.

A fidelidade a esses tempos não é ter para sempre o carro estacionado no parque. É lembrar e admitir sem hesitação que ali fomos felizes, nem que por breves momentos. E que até esses breves momentos duraram bem mais do que isso.

Um casamento é uma história que se conta a quem nos acompanha e a quem acompanhamos. Por isso os amigos ali estão. Nunca se sabe como irá acabar. Espera-se sim que o enredo seja rico ou, utilitariamente para quem assiste, "enriquecedor". Sugestionados pelas hordas americanas de ficção, assumimos que "tudo vai acabar em bem". Mas porquê?

A magia não é, sabemos hoje, mais do que um truque, uma habilidade de gesto, um engano, uma esquerda que é direita, um desaparece e reaparece. O amor é isso, combustível que permite as mais improváveis habilidades. Fóssil porque prévio, e porque sabemos que o tempo dos combustíveis fósseis está a passar à história.

Resta-nos a força do vento, do mar, do sol, as tais energias renováveis, mas a urgência do truque, da ilusão não se compadece com baixas voltagens.

Por isso hoje as pessoas casam nos solares do Minho, compensando com o fausto de antigamente o pouco calor que emana das suas histórias pessoais. Acabam todos atirados à piscina do costume, e pouco mais acontece, eis um caso de magia que se afoga, como um par de gatos à nascença.

Casei, está casado o moço, está visto o que havia p'ra ver. Desfeito o que foi feito pelo tempo que tudo mói e desfaz, falta o resto.

Falo de  resto porque a vida, esta vida, é afinal uma simples conta de dividir que nunca dá certo. Eu dividido por... tu dividida por... a minha filha dividida por...

O resto, os vários restos, são o pó sobrante daquela magia original de que falei no início.

Cuidado ao pisar, este pó mantém-nos - um bocadinho - vivos...

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