sábado, 2 de outubro de 2010

Seis mil palavras - o início.

"Seis mil palavras. Será demasiado. E não é. Estou nesta casa há mais de três meses. No mês anterior corri uma dezena de hotéis da cidade do Porto. O primeiro trimestre desta gravidez está mais que feito. Decidi então fazer umas fotografias para documentar esta implosão. Porque se trata de uma implosão.

Tenho de explicar quem sou, suponho.

O meu nome está lá fora, na ficha de inscrição, ou lá como se chama. Tenho quarenta e seis anos. Por profissão médico. Trabalho numa grande unidade hospitalar desta cidade para onde agora vim viver. Cumpro com moderada lealdade as funções que ali me são confiadas. Num hino à mobilidade profissional, trabalho no mesmo sítio há vinte e um anos.

Tenho uma filha que vai fazer doze anos não tarda nada, e estou em subterrâneo processo de separação de um segundo casamento.

Porquê separação, porquê subterrâneo? Vejamos o subterrâneo. Quase ninguém sabe. Como se tivéssemos vergonha do acontecido. O nosso casamento não podia, não devia falhar. Eu sei que todos pensam isto. Portanto ninguém está preocupado. Há sempre uma paragem de autocarro onde nós, os que nos separamos, podemos apanhar o autocarro para longe da cidade dos casados. Encontramo-nos, dizemos “olá!”, o gajo ao lado pergunta o que foi, tu dizes “comi a vizinha do lado”, ele responde “fraude fiscal” ou “fiz testes de DNA ao meu filho de treze anos”… Bom, ninguém está à espera de me ver nesta famosa paragem de autocarro. É engraçado como somos colocados nestes papéis onde afinal quase tudo vem escrito, é como se fosse um contracto com o exterior, esse espaço imenso mas tão apertado, um palco afinal, onde estão os teus amigos, os teus colegas de trabalho, a família, o tipo onde compras os jornais, os restaurantes onde vais, o garagista, o barbeiro. E as luzes, os holofotes. Lá, no contracto, vem a tua obrigatoriedade de sucesso. Que sendo teu é também deles. Eles ganham um pouco contigo. E assim nos vamos sustentando, literalmente, ombro contra ombro, mirando um qualquer pôr-do-sol, agradecendo o aplauso final."

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