Às vezes a casa - esta de que tenho falado - não aguenta mais a minha presença e expulsa-me. Sou então obrigado a ir dar uma volta. Dar uma volta é um hábito bem enraizado nas pernas portuguesas, mas habitualmente a volta tem um vago objectivo, um trajecto levemente preferido, insinuado, ou declaradamente assumido. Há quem vá sempre até uma ponte admirar um rio, a um mirador perder de vista razões passadas que obrigaram a que a volta fosse dada. Saí sem objectivo nenhum. Nada. Outra coisa a companhia. Um cigarro? A música? O telemóvel mágico? Tudo isto e mesmo assim...
Vivo numa terra que é inclinada, que está inclinada. Alguém a inclinou e assim foi ficando. Inclino eu com ela, confesso. E passo por lá, pela inclinação de que falo, e que dá nome e projecção a esta cidade, património da humanidade e mais além! Não conhecendo o processo da canonização ao detalhe só esta me parece poder ser a razão para tanta entronização, este sítio curioso e ímpar, em que toda a terra, torrão a torrão, um planeta inteiro, inclina, numa suave vertigem. Não consigo olhar. Grande saída, grande volta!
Aliás, nem posso olhar.
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