domingo, 31 de outubro de 2010

Afinal a mais pequena das explicações.

O riso. A justa lágrima. Os dois olhares, que mais haverá. O peixe nocturno de que já falei. A louca hipótese de ser a tua casa e sobreviver a isso. E mais, muito mais.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

DeBorla.

O relógio DeBorla não pára de funcionar... há doze horas!

Osmose?

Depende do que se lhe queira chamar. Eu digo que aprendo. Que adquiro. Que aumento a colecção. Por osmose será. Parasitismo puro, a outra versão. E continua. Portanto o Porto continua a entrar pela porta aberta. Até quando. Não acabarei portista, a tanto não chegaremos. Nem sei como acabarei, mistura de mistura da mistura. Porque as boas coisas ficam para sempre. Como alguma que outra vogal cantarina de Trás-os-Montes a terminar a palavra. As alheiras. A paixão definida por uma cidade sediada a Noroeste e onde vou voltar, garanto. O aceitar da chuva e do frio e da noite precoce porque estamos A Norte. Havia uma rapariga que usava cerejas como brincos. As histórias passam por mim e ficam. Muito melhores do que qualquer uma outra que eu algum dia invente.

domingo, 24 de outubro de 2010

Some came running.

Chamo um dos meus filmes preferidos, e que me faz perdoar a Shirley MacLaine tudo o que de menos bom ela tenha depois decidido fazer. Onde também residem Frank Sinatra e Dean Martin. E a mão boa de Vincent Minelli. Um filme que é uma lição desesperada.
Fui correr para o Parque da Cidade. Não tem nada a ver com o filme, eu sei. Ó pá, que se fôda. Não corria, quê, há vinte anos? Então como subscrever o que vou dizer: eu gosto de correr. Sempre gostei do pisar ritmado da corrida, do corpo a, através das pernas em ritmo, bater na terra, no piso, na pedra, e a seguir, progredir, subir, descer, curvar, sacudindo as coisas que eram tuas antes das primeiras passadas. E dos braços, dos ombros, das orelhas, vão caindo essas coisas, agora reduzidas a nada, merda que alguém depois pisará.
Regra número um: não voltes atrás para as apanhar. Neste caso, estás dispensado de apanhar as cacas.

O estado da nação.

Tomei dois Seinfelds, fiz a diagonal do suplemento Babelia e do Viajero do El País - tantos, mas tantos sítios onde não irei! - e agora vou tomar um chá. O primeiro chá em meses. This ought to mean something... but it doesn't.

As boas tábuas.

Hoje, pela primeira vez em anos, jantei sózinho com os meus pais. Havia assuntos para tratar que, no fim do jantar, tratados foram.
A meio da comida, um coelho bem preparado pela minha mãe, olhei à minha volta. Ser-me-ia impossível voltar a viver ali. Mas morrer, fazer a lenta despedida, morrer sim. Aquela casa tinha o peso, o silêncio, a matéria certa para os longos tempos que é como são, as mais das vezes, aqueles que são os últimos. Não será assim, e a solução final que irei encontrar quando me encontre com esses tempos, será sempre uma segunda e imperfeita opção.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Astronomy

To see the moon and the stars, indoor version!

Faria Guimarães mesmo.

Em Faria Guimarães morei, durante a semana, num quarto pequeno tipo águas-furtadas ano e meio de faculdade.
Lembro-me da rua bem porque me lembro do seu trânsito. Ainda sem túnel, começavas a ver o autocarro lá em baixo e demorava uns bons dez minutos antes que ele subisse e chegasse até à paragem intermédia onde o apanhavas para ir jantar a Economia, por ex.
Havia um Multibanco no Marquês, e era o fascínio de ir levantar dinheiro com o cartão da namorada, que não o tinhas. As compras escassas faziam-se num Modelo ali logo acima. E a Baixa ficava à mão de semear, mais os seus cafés, o Aviz, o Ceuta, o Imperial. O Piolho nem por isso. Para jantar bem o ISCAP. E as noites por vezes eram longas...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Do calor de uma casa.

O calor de uma casa mede-se como? E na casa o das gentes?

Faria Guimarães e um fim.

Em Faria Guimarães moravam os pais de. Fiz-me funcionário dos TLP - ainda se chamaria assim a empresa - para obter um contacto telefónico que posteriormente me serviu para convidar para jantar a pessoa de que não falo. Mereci parte do ódio que depois veio. O pai era uma jóia de homem, conheci-o em alguns almoços de "família". Era homónimo de um ex-Presidente da República. Um dia esteve perdido para os seus só porque desapareceu com umas estrangeiras a quem o carro se tinha avariado. Voltou noite dentro, o carro consertado, sem mais, as estrangeiras como se filhas dele. Era uma figura simpática, redonda, calada, tímida. Não a mãe, uma pequena mulher que o era também do seu nariz.
A bondade - no sentido de "as coisas que são boas" - reside nos recantos mais escuros. O dia que fui buscar as minhas coisas à Maia, donde tinha saído, pela primeira vez vi na casa abandonada um retrato destes pais. A dor induzida levara ao refúgio e à busca da tábua de salvação. Sendo que o porto mais óbvio era em Faria Guimarães.

Faria Guimarães...

Ou terá sido a Rua de Camões? Há 27 anos desci uma delas na mais plena das euforias. Comia não sei que bolo mas é provável que fosse uma bola-de-berlim, era o meu bolo preferido nessas épocas, ofereci-o rua abaixo a toda a gente que passava, parei de oferecer quando acabei de o comer. A pé fui apanhar o comboio para São Bento, que me soou nesse dia como da Vitória, São Bento da Vitória, explico. Tanto aprendi depois, ou não, se calhar não sei nada de nada, como então não sabia. Pequena a vitória desse dia, isso sim aprendi.
Ainda que pequena, apetecia uma que outra vitória, aqui ou ali...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

As Horas Extraordinárias.

Para mim foi sempre uma canção. Sempre. O mote acima é muito antigo. De quando ouvia Sérgio Godinho e acreditava, de quando algumas palavras que eram ditas me pareciam ser à uma as primeiras e as últimas.
Hoje já não é assim. A canção mais ouvida na minha playlist chama-se "As Despesas Extraordinárias". Tem várias frases chave e a rima é perfeito, diz qualquer coisa sobre quem está primeiro, e claro que isto vai acabar por rimar com dinheiro, algum dinheiro, não tanto assim mas o bastante para que o colarinho sofra, o sorriso se desfaça. Falamos de várias coisas, nenhuma delas desprezável, todas elas com a sua necessidade em deriva de coisas que se foram acumulando num tempo em que o dinheiro era mais. Caprichos? Ná. Um violoncelo 3/4, um aparelho para a fileira superior de dentes da, o arranjo definitivo da galeria de para que a sua venda seja.

Um IRS dois meses seguidos é dose. E ando escasso de tupperwares.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

E...

fez-se noite.

A volta ao quarteirão.

Às vezes a casa - esta de que tenho falado - não aguenta mais a minha presença e expulsa-me. Sou então obrigado a ir dar uma volta. Dar uma volta é um hábito bem enraizado nas pernas portuguesas, mas habitualmente a volta tem um vago objectivo, um trajecto levemente preferido, insinuado, ou declaradamente assumido. Há quem vá sempre até uma ponte admirar um rio, a um mirador perder de vista razões passadas que obrigaram a que a volta fosse dada. Saí sem objectivo nenhum. Nada.
Outra coisa a companhia. Um cigarro? A música? O telemóvel mágico? Tudo isto e mesmo assim...
Vivo numa terra que é inclinada, que está inclinada. Alguém a inclinou e assim foi ficando. Inclino eu com ela, confesso. E passo por lá, pela inclinação de que falo, e que dá nome e projecção a esta cidade, património da humanidade e mais além! Não conhecendo o processo da canonização ao detalhe só esta me parece poder ser a razão para tanta entronização, este sítio curioso e ímpar, em que toda a terra, torrão a torrão, um planeta inteiro, inclina, numa suave vertigem.
Não consigo olhar. Grande saída, grande volta!
Aliás, nem posso olhar.


O médico proibiu-me e eu obedeco.

Ensaio sobre a tristeza.

O que fazer com toda esta tristeza que nos acontece? Que nos tem tomados, ausentes, expedidos para um outro país. Será que podemos dividi-la em partes e assim… relativizar? Será que podemos explorá-la, deitá-la, descê-la do cimo daquela árvore e cedê-la àquele jovem que passou agora mesmo, com certeza ele poderá carregá-la bem melhor do que nós, eu tenho mesmo a certeza…

Outra hipótese seria publicá-la, anunciá-la com disfarce mas sim, ser ela, pedir uma universal ajuda, tendo em atenção e considerando, desenhar cartazes do tamanho de um país erguido para que os outros países vejam e se ponham completamente a pensar, como, como a solução…

Também podia tentar-se atirá-la para uma garagem, simular um suicídio, aquela coisa dos gases de combustão, embora esta palavra mesma me demore e atrapalhe, pois somos nós quem arde e está em combustão, somos nós quem em lume brando vai servindo – a quem? – de alimento…

Decidi apelar às mais altas instâncias, por isso mal vejo um sítio por onde subir, trepar, elevar-me ao mais alto - lá as procuro, essas estranhas e consideradas instâncias de recurso, e nós sabemos com eu sou insistente, existente, assistente diário a toda esta nossa tristeza a descer pelas ruas, perder-se das janelas dos carros, a saltar para os pátios e parques de estacionamento, e ser mil vezes pisada e manter-se, e seguir em frente.

Eu acho que é demasiada esta nossa tristeza, sabes, embora pense que um peso assim só nos pode beneficiar, fazer músculo, ajudar a secar rios, drenar pântanos, recuar as águas para que um mar um dia seja atravessado, e ainda bem e tal, mas eu acho, desculpa, que é demasiada e, se não te importas, da tristeza digo, queria fazer um outro truque qualquer e abdicar desta coisa de ver o fundo do mar, o fundo do mar vermelho…

Também podemos fingir que ela não está, que é fim-de-semana e foi para a aldeia, que é de noite e só ataca de dia, que é dia e só da noite devemos ter receio, enfim, jogamos, viramos a mesa, algum golpe baixo deve servir, rodar os circadianos, saltar os meridianos dos fusos horários e atrasar a sua chegada, antecipar a partida…

Enfim, eu percebo, agasalha, protege, completa. Corrige, afronta, isola. Não podemos despedi-la, mandá-la embora? Não podemos…
Estamos nesta sala, vamos, que seja uma qualquer sala, tiramos a mesa, as cadeiras, eis a nossa tristeza espalhada por todo o chão.

Por este andar, ela veio mesmo para estar e não ir embora, ela ficou mesmo senhora de todo este espaço que somos. Mas, pedaço a pedaço, eu sei, tu eu fazemos dela uma coisa mais pequena…


sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Vela.

Uma vez mais hoje velarei para que alguém adormeça bem e assim fique.

Oaristos.

Vivo hoje por hoje na Rua Eugénio de Castro, certo? Poeta do século XIX da corrente simbolista cujo primeiro livro se chamava... "Oaristos"! Nem mais...
Que caralho quer dizer "oaristos"?

Oaristo (vem do grego...): "Diálogo entre marido e mulher. Entretenimento íntimo, colóquio terno."

Oh, foda-se...

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Outra vez a banca da livraria Calendário.

Como passa o tempo. As estações, cúmulo de dias; a chuva, os ventos alternantes. Olho lá para fora e vejo um momento de acalmia. O tempo o faz e desfaz, este intervalo em que te escrevo. Chego à conclusão que já somos velhos conhecidos, que um do outro as superfícies já se gastaram de tanta proximidade. Resistentes ao toque, et pour cause. Gastamo-nos ou conservamo-nos um ao outro? Em manobras arriscadas os nossos barcos têm falhado sucessivas balizas, desenhando piruetas marítimas tão aplaudidas quanto ineficazes. Desconhecemos a pontuação, em que lugar vamos, onde terminará esta corrida de resistência, que em si é o próprio rio. Consta que se segue uma zona rápida, dizem que as pedras perigosas são ali mais para diante.

Bah, isto é nada. Tudo passa, os dias, as marés, a dor depende, a insónia também depende. Mas a dor desperta e a insónia corrige qualquer euforia de ocasião.

O tempo é tudo, as folhas caem, é Outubro, outra vez a Calendário monta a sua banca, o fundo-de-catálogo onde apareço eu também, esqueço-me em que página, sob que referência.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Ficha Técnica.

"Ficha técnica: estas fotografias foram feitas com uma câmara GT-S8000 pertencente a um telemóvel SAMSUNG, nos meses de Agosto e Setembro deste ano. O telemóvel foi comprado este ano a um amigo porque a mulher dele não se adaptava ao touch screen, e o pagamento foi feito através dum cartão-presente daquela-loja-que-vocês-sabem, em valor que me dispenso de enunciar, para a esposa.

Abaixo decanto de uma tabela Excel os valores de exposição e velocidade fotografia a fotografia – não é fácil meter fracções numa tabela Excel – valores que decorrem das opções a que a câmara chama de “cenário” que usei, a saber: festa/interior, luz de fundo, e nenhum. Vendo as fotografias é fácil adquirir onde se usou que opção.

(...)

E pronto, está feita a ficha técnica."

The Child.

Let me tell you a story...

O telescópio.

Enquanto a revolução acontece cá dentro e lá fora, a minha filha vai serpenteando por entre estas convulsões sociais, e aparentemente decidiu que  quer ser astrónoma.
E foi desencantar um telescópio que in illo tempore me foi oferecido, um muito razoável telescópio, que nunca tinha merecido montagem nem experiência.
Porquê? Pela mesma razão que há uma óptima Canon 500 EOS por aí parada bem como uma impressora nova de fotografia por estrear. A ausência de diálogo ou de intersecção, como o queiram pôr, pode começar no detalhe mais pequeno dos dias e ir terminar nos mais imaginativos, sentidos e valiosos presentes. Curiosamente tais presentes foram sempre derrotados por eu achar que "não havia condições". Esta é uma expressão parva, concedo. Por condições explique-se uma cabeça em perpétuo balanço, logo como observar as estrelas, montar ou exibir isto ou aquilo... Suponho que o que se aplica a esta margem deverá servir também ao abandono recíproco contralateral.
Bom, a minha filha quer ser astrónoma. O telescópio foi montado. Sexta-feira de noite não conseguimos ver nada, nem estrelas, nem vizinhas nuas, nada. Ela desmoralizou. Ontem de tarde, antes de ir trabalhar, estive a tentar afinar a mira. Felizmente depois meti-o para dentro de casa, com a borrasca hoje já não havia telescópio. Terça-feira voltaremos a tentar.
Curiosamente a astronomia foi uma discreta aficción minha de adolescente. Julgo ainda saber algo mais sobre as estrelas e seu mundo do que o vulgo. Enfim, eu seu mais sobre praticamente tudo do que o vulgo, uma maldição que me persegue. Sobre mim se disse que ter-me "em casa" dispensava ter a "enciclopédia do costume, bastava perguntar-me"...

E no entanto não sabia o que era uma "adrasta"...

Resumindo e concluindo e citando...

"Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos..."

sábado, 2 de outubro de 2010

Mas...

Casar é pensar que se pode ficar por ali... para sempre. É. E nesse sentido falhei. Só desta vez. Mas falhei, está falhado. Siga.

Seis mil palavras - o fim.

"Vivo aqui na talvez primeira solução de vida de qualidade para ricos desta cidade do Porto, desenhada com o cuidado e a atenção ao detalhe que os anos a seguir não conseguiram replicar. Fui abraçado pelo incessante trânsito de quem por esta cidade passa e se redistribui. Informaste-me que durante bons anos toda esta qualidade foi ilegal . É justo. Assim esta minha separação, assim o primeiro apartamento em que vivi com alguém, na idade da pedra polida. Moras aqui bem perto, mas a milhas náuticas da agora minha casa. E não moras. Chamas-lhe o teu “domicílio fiscal”. Com esse teu peculiar sentido de humor, que rima com o teu andar cuidado como que sabendo que alguém vigia, mais um disfarce teu. Ou é apenas o difícil diálogo que te acontece entre os teus pés e a tua coluna?

Descobri então este apartamento que arrendei. Tem um espaço aberto a norte e poente onde bate o sol ao fim da tarde, por entre as folhas de umas árvores enormes que, do chão, três pisos mais abaixo, chegam até cá cima e me entram pelo terraço adentro. Vivo num hall de quatro apartamentos dos quais dois estão desocupados, e o terceiro alugado a gente que pouco pára por aqui e já me informou que o seu arrendamento – olha, também – é uma solução temporária… mas viver não é em si uma solução temporária? Depois de um mês de hotéis, guardo do Hotel Douro, ali na Boavista boas recordações. Só para citar e dar exemplo. Vida de hotel…

Comecei aqui então a recolher e distribuir pelos espaços as coisas que afinal me definem. Somos as coisas que trazemos connosco quando estas coisas acontecem. Um filme recente com o Clooney tratava disto, ou talvez não. A minha lógica de mochila será um pouco diferente, ou outra a metáfora. Curiosamente distribui, acarinhei e usei para decoração presentes e coisas e objectos que levavam anos encaixotados, perdidos, desprezados. Oferecidos vários por quem abandonei. Mas eu sabia, eu sabia que aquelas coisas iriam um dia ser importantes para mim. Seria não só eu a saber? Hoje fazem parte desta nova paisagem que criei. Sei que este apartamento por outro lado é uma afirmação, um discurso que eu faço contra o meu passado, e contra este presente anulado que tu és morando a cem, duzentos metros de mim. Quem aqui venha olhará para as minhas soluções (!) decorativas, pueris umas, adolescentes outras, e, antes de se lançar num protocolo de desqualificação, perguntará – porque nunca disseste a quem de direito que querias as coisas assim? Primeiro, a quem de direito é uma expressão que abomino. Segundo, a resposta estará algures em cima de muitos papéis, num qualquer escrito naquela letra ilegível que uso, ou se calhar naquela tinta transparente que, eu sei, também uso, mas uma pequena parte estará também no facto de, há muitos muitos anos, eu ter tido um apartamento onde morei sozinho algum tempo. Um amigo meu desse mítico espaço e tempo foi meu doente há poucos meses, e, simpático e predisposto a isso por real amizade e pela sua saúde estar nas minhas mãos, disse que aquele “apartamento” de então tinha sido para ele uma “referência”. Ele é casado com a namorada de então, e tem duas filhas. Enfim, é um bom rapaz… portanto, “referência”? Passaram demasiados anos, manhãs e tardes, e noites também.

O que se perdeu nestes anos? Nada, nada. Palavra que responde sempre a tudo que tão usada se torna. Tive bastante cuidado em não repetir as piadas decorativas de há quinze anos. Os estores sem janela por trás, os quadros pintados por mim à pistola com recortes do “Expresso” a decidir o tema… Mas este é agora o meu muito amado ninho deste difícil momento em que estou. Nas enésimas visitas a apartamentos que fiz a malta das imobiliárias julgava agradar-me dizendo “todo mobilado”! Aí já a minha cabeça estava a pensar “próximo!”. Construi-o contando os tostões. Afinal, agora estou a pagar duas casas, como que um imposto que se paga por ser livre. Consigo. Sou um privilegiado, admito. Chego aqui e sinto-me em casa minha. Em nenhum outro lado isso hoje acontece.

(...)

Portanto a história é esta, e contada nestas fotografias que coloco à avaliação de quem de direito. O fazer de uma casa. De uma vida. O refazer desta, melhor dito. Que aquela de novo se fez. Objectos. Olhos que vêem e não vêem nada. Que voltam a tentar. Que se fecham e só voltam a abrir no dia seguinte. E ainda não vêem nada. Para isto não era necessário grandes meios técnicos, disponíveis mas não necessários, assim me pareceu. Foi dada prioridade a uma mensagem – ahah, a mensagem! -, que explicitei no que escrevi antes. Falei de um ano que passou ou talvez nem um ano, nove meses. Saltemos por cima da metáfora fácil. O trimestre de que primeiro falei sendo o terceiro, primeiro, como escolher? A ordem das fotografias não é temporal. O que eu escrevi acima também não é denotativo e objectivável. Vão ter de acreditar em mim. E saltei para trás e para a frente. Disse “não vou falar mais disto”, e falei. Disse “vou esquecer”, e lembrei. Contei a história de pessoas vivas, embora a morte fosse invocada mais do que uma vez. Como disse o Marquês de Sade, citação que abre um romance que agora estou a ler, “je ne sui pas heureux, mais je suis bien.” Quando disse isto, estava preso. Estas fotografias tratam da construção deste estado de bem, escasso, instável, mas ao qual acedi, e é, hoje por hoje, onde estou. A morada que vos cedo para correspondência devia também dizer isto como extra, a substituir aqueles três últimos algarismos do código postal, por exemplo.

Havia aquele filme sobre uma guerra, as guerras, “Vem e vê”. Tal qual. Obrigado pela VISÃO ATENTA.

Seis mil palavras? Não. Quatro mil seiscentas e doze… treze.

Seis mil palavras - o início.

"Seis mil palavras. Será demasiado. E não é. Estou nesta casa há mais de três meses. No mês anterior corri uma dezena de hotéis da cidade do Porto. O primeiro trimestre desta gravidez está mais que feito. Decidi então fazer umas fotografias para documentar esta implosão. Porque se trata de uma implosão.

Tenho de explicar quem sou, suponho.

O meu nome está lá fora, na ficha de inscrição, ou lá como se chama. Tenho quarenta e seis anos. Por profissão médico. Trabalho numa grande unidade hospitalar desta cidade para onde agora vim viver. Cumpro com moderada lealdade as funções que ali me são confiadas. Num hino à mobilidade profissional, trabalho no mesmo sítio há vinte e um anos.

Tenho uma filha que vai fazer doze anos não tarda nada, e estou em subterrâneo processo de separação de um segundo casamento.

Porquê separação, porquê subterrâneo? Vejamos o subterrâneo. Quase ninguém sabe. Como se tivéssemos vergonha do acontecido. O nosso casamento não podia, não devia falhar. Eu sei que todos pensam isto. Portanto ninguém está preocupado. Há sempre uma paragem de autocarro onde nós, os que nos separamos, podemos apanhar o autocarro para longe da cidade dos casados. Encontramo-nos, dizemos “olá!”, o gajo ao lado pergunta o que foi, tu dizes “comi a vizinha do lado”, ele responde “fraude fiscal” ou “fiz testes de DNA ao meu filho de treze anos”… Bom, ninguém está à espera de me ver nesta famosa paragem de autocarro. É engraçado como somos colocados nestes papéis onde afinal quase tudo vem escrito, é como se fosse um contracto com o exterior, esse espaço imenso mas tão apertado, um palco afinal, onde estão os teus amigos, os teus colegas de trabalho, a família, o tipo onde compras os jornais, os restaurantes onde vais, o garagista, o barbeiro. E as luzes, os holofotes. Lá, no contracto, vem a tua obrigatoriedade de sucesso. Que sendo teu é também deles. Eles ganham um pouco contigo. E assim nos vamos sustentando, literalmente, ombro contra ombro, mirando um qualquer pôr-do-sol, agradecendo o aplauso final."

Dos casamentos já tidos algum apontamento.

A cada casamento a sua cerimónia. Cerimónia diz-se da pausa e da hesitação que se faz antes de comer. Casar também é um pouco isto, não?

O casamento não é a sua cerimónia. É a sua ilusão. Ilusão é outro nome dado à magia, ao truque. E há passes de magia que ficam no nosso olhar para todo o sempre. Não me restam fotografias de nada. Não importa. Trago comigo imagens de truques que foram feitos e onde o povo, a plebe, esses que hoje me declaram "louco" aplaudiram a bom aplaudir.

A fidelidade a esses tempos não é ter para sempre o carro estacionado no parque. É lembrar e admitir sem hesitação que ali fomos felizes, nem que por breves momentos. E que até esses breves momentos duraram bem mais do que isso.

Um casamento é uma história que se conta a quem nos acompanha e a quem acompanhamos. Por isso os amigos ali estão. Nunca se sabe como irá acabar. Espera-se sim que o enredo seja rico ou, utilitariamente para quem assiste, "enriquecedor". Sugestionados pelas hordas americanas de ficção, assumimos que "tudo vai acabar em bem". Mas porquê?

A magia não é, sabemos hoje, mais do que um truque, uma habilidade de gesto, um engano, uma esquerda que é direita, um desaparece e reaparece. O amor é isso, combustível que permite as mais improváveis habilidades. Fóssil porque prévio, e porque sabemos que o tempo dos combustíveis fósseis está a passar à história.

Resta-nos a força do vento, do mar, do sol, as tais energias renováveis, mas a urgência do truque, da ilusão não se compadece com baixas voltagens.

Por isso hoje as pessoas casam nos solares do Minho, compensando com o fausto de antigamente o pouco calor que emana das suas histórias pessoais. Acabam todos atirados à piscina do costume, e pouco mais acontece, eis um caso de magia que se afoga, como um par de gatos à nascença.

Casei, está casado o moço, está visto o que havia p'ra ver. Desfeito o que foi feito pelo tempo que tudo mói e desfaz, falta o resto.

Falo de  resto porque a vida, esta vida, é afinal uma simples conta de dividir que nunca dá certo. Eu dividido por... tu dividida por... a minha filha dividida por...

O resto, os vários restos, são o pó sobrante daquela magia original de que falei no início.

Cuidado ao pisar, este pó mantém-nos - um bocadinho - vivos...