terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ensaio sobre a tristeza.

O que fazer com toda esta tristeza que nos acontece? Que nos tem tomados, ausentes, expedidos para um outro país. Será que podemos dividi-la em partes e assim… relativizar? Será que podemos explorá-la, deitá-la, descê-la do cimo daquela árvore e cedê-la àquele jovem que passou agora mesmo, com certeza ele poderá carregá-la bem melhor do que nós, eu tenho mesmo a certeza…

Outra hipótese seria publicá-la, anunciá-la com disfarce mas sim, ser ela, pedir uma universal ajuda, tendo em atenção e considerando, desenhar cartazes do tamanho de um país erguido para que os outros países vejam e se ponham completamente a pensar, como, como a solução…

Também podia tentar-se atirá-la para uma garagem, simular um suicídio, aquela coisa dos gases de combustão, embora esta palavra mesma me demore e atrapalhe, pois somos nós quem arde e está em combustão, somos nós quem em lume brando vai servindo – a quem? – de alimento…

Decidi apelar às mais altas instâncias, por isso mal vejo um sítio por onde subir, trepar, elevar-me ao mais alto - lá as procuro, essas estranhas e consideradas instâncias de recurso, e nós sabemos com eu sou insistente, existente, assistente diário a toda esta nossa tristeza a descer pelas ruas, perder-se das janelas dos carros, a saltar para os pátios e parques de estacionamento, e ser mil vezes pisada e manter-se, e seguir em frente.

Eu acho que é demasiada esta nossa tristeza, sabes, embora pense que um peso assim só nos pode beneficiar, fazer músculo, ajudar a secar rios, drenar pântanos, recuar as águas para que um mar um dia seja atravessado, e ainda bem e tal, mas eu acho, desculpa, que é demasiada e, se não te importas, da tristeza digo, queria fazer um outro truque qualquer e abdicar desta coisa de ver o fundo do mar, o fundo do mar vermelho…

Também podemos fingir que ela não está, que é fim-de-semana e foi para a aldeia, que é de noite e só ataca de dia, que é dia e só da noite devemos ter receio, enfim, jogamos, viramos a mesa, algum golpe baixo deve servir, rodar os circadianos, saltar os meridianos dos fusos horários e atrasar a sua chegada, antecipar a partida…

Enfim, eu percebo, agasalha, protege, completa. Corrige, afronta, isola. Não podemos despedi-la, mandá-la embora? Não podemos…
Estamos nesta sala, vamos, que seja uma qualquer sala, tiramos a mesa, as cadeiras, eis a nossa tristeza espalhada por todo o chão.

Por este andar, ela veio mesmo para estar e não ir embora, ela ficou mesmo senhora de todo este espaço que somos. Mas, pedaço a pedaço, eu sei, tu eu fazemos dela uma coisa mais pequena…


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