quinta-feira, 30 de setembro de 2010

E parece que tenho pouco tempo...

"Atenção, que tens pouco tempo!" Para quê, dir-me-ás? Não, tenho muito tempo. O teu e o meu ideal não coincidem. Não ando à caça nem à pesca, as licenças vendidas há um bom tempo. Eu sei o que me dá hoje alimento.

Catrapiscar.

Agora sim, não nego, catrapisco...

"Onde estás és feliz?"

Não, mas onde estou é o único sítio em que estou bem. Parafraseando...
Aliás, sou amigo. Sempre que me perguntam se sou feliz, podia responder com um espelhinho para deflectir o raio laser e atingir quem me tentou atingir...

Da diferença a que temos direito.

"Sempre quiseste ser diferente!" Como se falássemos de um defeito, amiga! Querer ser diferente, neste país merdoso equivale nas por aqui cabecinhas - onde sabe que não a incluo - em querer ser, oh pecado, oh morte horrível! - a querer ser melhor, a querer sobressair, saltar para a primeira linha. Ora bolas! E ora não! Não quero ser melhor do que ninguém. Até porque não sou. Fazendo as contas bem feitas, tirando aqui e ali compondo, nem sou. Agora, sou diferente da manada, aí não falha. Não é querer... é saber o que se é, saber como resultou isto. Se eu quisesse ser diferente seria uma qualidade. Que eu nem precisei ter, certo? O mais, que se foda...

Não sou fácil.

Pois não. E?

A terceira dimensão.

Hoje disseram-me coisas que não posso deixar em claro. A idade, a idade...
"Porque tu és muito carente!"
Bom, vejamos bem... a palavra "carente" é uma palavra nojenta. Leva ao homicídio, ao assalto, à mentira como profissão de fé. Não curso para nenhuma destas águas. Posso carecer de algo que afinal nunca tive. Provavelmente terei que o encontrar em mim próprio, trabalho de casa que já devia estar feito. A auto-celebração devia ser ensinada nas escolas... A paz é o maior bem. Dela careço. E ficamos por aqui, ok? A um outro desafio que em foi feito responderei em Novembro, assim salte o graveto qb.
Caríssima amiga, tem de mim uma fotografia já com anos, antiga portanto e a duas dimensões. Nunca a mão penetrou e entrou à procura, o cacifo número três é assim que se encontra, lá está o tal livro de explicações que eu já estou cansado de facultar às gentes.

sábado, 25 de setembro de 2010

Dos futuros encontros.

Um bom amigo desejou-me, ou melhor, assegurou-me, que é outra forma de consolo, um bom futuro encontro com alguém do oposto sexo, e bem que ele sabe ser essa a minha pendular inclinação...
Caríssimo, asseguro-te, em doce e amiga contradição, que passados encontros tive já uns quantos e bons, uns estelares, outros estalados, outros ainda que só à estalada...
De pouca água e fervedor, atenho-me neste momento a leituras de pousio. E se esse Deus, que tu e eu sabemos não existir me permitir ainda muitos e bons anos  para boas leituras e boas miragens, eu provecto miragens elas, darei por cumprida esta minha inventada missão que é a de descobrir a verdade onde ela não existe, no amor, terreno que diferente se apresenta da pesca, da guerra, da caça, pois o mais habitual é mentirmos a nós mesmos.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Os desenhos.

Da humanidade os mais antigos vestígios, quando saímos de longa viagem da pedra lascada para a pedra polida, são as pedras que nos enterram e as jóias que nos enfeitam.

E ali estavam. O desenho que os meus dedos fizeram um dia, ali. Noutro sítio o nó a duas cores que um dia uniu. Noutro sítio ainda o cautério de uma situação, buraco profundo, feito um sol, como não podia ser de outra forma. Ou ainda desenhos simples como as palavras que te queria dizer, curvas lentas e suaves como os possíveis silêncios que tudo tornam relativo e inofensivo.

Um mar de jóias. Que como sargaço aqui tinham dado à costa. Imagina-as sobre água a boiar. Imagina a escolha certa, o súbito refluxo de todas as outras peças para sobrar apenas uma, a não parar de mexer na pequena onda do mar próximo, como se indecisa, “…e apenas uma servia, e quem a envergasse…”, é deste pó que nascem os mitos, por aqui se vê claramente que as jóias não servem apenas para adornar.

As maiores jóias são como as melhores palavras, não complemento mas o próprio verbo.

domingo, 19 de setembro de 2010

Nada, nada.

“Quem estiver de acordo que levante o braço!” Esta frase dominou muitos anos os plenários dos tais partidos totalitários, onde uma opinião contra era impossível. Pelo contrário, nos partidos democráticos o voto era secreto. E é ainda.
Bom, e vem isto tudo a propósito de quê? Vistos e entrevistos, levantou-se o braço, piada muito particular. O braço levanta-o o náufrago para ultrapassar com os dedos da mão a linha da água e assinalar onde está: “Aqui, salvem-me!” E salvar-se. Seria o caso? Trazias os teus olhos de naufrágio contigo, eu reparei, nem vou pôr-me a inventar porque te erguias detrás daquela coluna de centro comercial e como por magia nos vimos, estarrecidamente, e levantámos os braços. Ou seria apenas o braço sustento da mão que sobe e diz: “presente!”. Sim, presente, é este um fim-de-semana como outro qualquer, os meus pés, repara como bem se arrastam, rentes ao chão – ao contrário dos semanais dias de emprego em jaula.
Sabemos bem a coragem de levantar o braço, já desde os tempos do liceu o alívio que dava quando era uma daquelas outras miúdas a levantá-lo e toma, a responder, a perguntar, a levar na tromba, whatever, e eu não.
Sim, levantemos o braço como quem nega, disfarça, desdenha outra qualquer medida de retenção na fonte das verdades mais íntimas que nos guiam. Sim, isso, levantemos o braço completo como quem nem repara, desconhece, abdica de o reconhecer como um levantamento válido.
Porque será outra a nossa formação e seriam secretos os nosso votos.

Na prática foram segundos. Um fácil trocadilho para quem nunca foi o primeiro em nada.




sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Que não restem dúvidas.

Não há meio de conseguir que o relógio comprado no DeBorla funcione. Mas o tempo passa, corre, voa. Em 60 horas back to fuckin' work.
Mais tarde ou mais cedo haverá uma decisão definitiva. O jogo tem sempre um fim, não uma infinidade de prolongamentos. E haverá papéis a circular. The clock is indeed ticking. No OST but, there it is, I know!

Que não restem dúvidas, vem aí o Inverno.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Porque gosto da praia.

Porque gosto da praia?

Fui muito à praia em três períodos da minha vida.

O primeiro período foi na minha infância, com os meus pais, tios, primos, avós, etc. As boas referências não estão aqui, aqui não. Há postais, escassos postais que me são agradáveis. Outros nem por isso. Lembro melhor, com mais agrado, a estadia no Furadouro propriamente dito do que na praia do Furadouro. Brincadeiras como os meus primos num Furadouro antigo. Tempos idos de uma família alargada que eu mandei embora.

O segundo período foi o da minha adolescência, com os meus amigos de então, seguindo os rituais de estender toalha, brincar, ir à água, ver as miúdas, circular, ou então ficar pela esplanada, ir ouvir uma música a casa de… Aqui as referências também são mistas. Todos os amigos de então ainda o são, embora a muitos não lhes ponha a vista em cima há vinte e cinco anos… O misto está em que em muitos dos rituais acima ditos, eu não entrava bem, não entrava muito, ou não entrava. Não é este o momento ou o texto para enunciar as minhas limitações de então, que algumas até ainda cá estão! Mas passei óptimos bocados naquela praia e com aquela malta! Cresci com eles, vendo e aprendendo. Há flashes, pequenos vídeos, piadas memoráveis que ainda cá estão. Adiante.

O terceiro período coincidiu com uma fase chave na minha vida, e não aconteceu na praia que quase me viu nascer, nem aconteceu neste país. Durante seis meses morei ao pé de uma praia. De Fevereiro até Julho. Praia que comecei a frequentar – quê? -, em Junho para aí, e depois segui, até porque o meu trabalho naquela fase não me pedia muito. Trabalhava num hospital que olhava para a praia onde eu morava. Saia do trabalho a olhar para o meu destino. Tratava-se porém de uma praia de ria, não de mar, não havendo portanto as mesmas valências de entorno que eu tenho ultimamente encontrado nesta minha frequência da praia Azul, que -explico -, fica entre a Boa Nova e a praia do Aterro em Leça. O terceiro período foi espectacular. Também pela praia. Que acabou por ser um detalhe. Um objecto giro mais numa mesa a abarrotar deles, uma colecção inteira. Este período arrancou mal e terminou bem. O arranque passou bastante pela praia. Depois não.

Vivo onde não há silêncio. A cada minuto dezenas de carros rodeiam este apartamento, ouço-os neste preciso momento que escrevo, e já passa da meia-noite. Dizer que passam ao lado de é pouco, porque aqui a VCI encurva, e depois cede um braço para a Boavista e o Bessa e outro para a Circunvalação, Leixões e todo o Litoral Norte que se segue até Caminha. Falo de um rodear que é aquilo que eu faço quando volto donde seja para aqui. Rodeio. Em mais sentidos do que um. Não abraço. Bem queria.

Igual a praia que eu idolatro. Chego ao areal e logo o ronronar feliz do mar me envolve. Onda após onda ele entra na minha cabeça e vai removendo camadas e camadas de coisas que não interessam a ninguém mas que em nenhum outro sítio as consigo tão bem perder. Recebe o mar a ajuda adicional das crianças e das gaivotas.

Leio, paro de ler. Vou até ao mar comprovar o gelo em forma de água de que ele é feito. Pela areia húmida um rasto de sargaços, pois o mar dos mesmos não fica longe. Pedras que decidi coleccionar, roladas até à perfeição. Um pequeno grupo de rochas com dois ninhos de bivalves, mais longe outras rochas menos acessíveis estão cobertas deles, e de passaredo. Ainda anteontem admirei os seus voos rasantes à espuma que subia. Que bom é não pensar na companhia do amigo Oceano. O mar Oceano dos antigos. Daqui a dias vou perdê-lo. Para o frio, para o trabalho que volta, e voltarão as coisas inúteis a tomar conta da mim, inapelavelmente. Não importa. Sempre o som estará ali para ser ouvido, bastará buscá-lo, no fim de uma tarde, numa manhã de saída de turno. O som que reduz todos os outros à sua devida insignificância.

Poucos sons há melhores do que o silêncio. Este.