domingo, 14 de novembro de 2010

Carta à minha filha sobre os namoros e outras merdas - parte um.

Meu amor:

Com certeza notaste o uso inicial da palavra acima. Se puxares pela cabeça e fazendo algumas contas pensarás para ti mesma: " ele raramente me chama isto!" Na verdade te digo que se contam pelos dedos as pessoas a quem eu chamei tal coisa. E porquê? Porque o amor é a maior das incertezas, aquela hipótese suprema que sempre fica até ao fim dos nossos dias por confirmar - e mesmo aí...
 Agora em relação a ti não, as dúvidas não estão, porque o amor paterno é uma certeza inamovível, uma rocha inquebrável, uma caça de altanaria que jamais quebrará o pescoço e se verá derrubada até ao chão. Amo-te imenso, minha filha. Como? Não sei dizer, porque não encontro comparações. E amo-te na exacta medida que sei que o futuro nosso, teu e eu, implica uma prematura ou tardia mas certa separação, porque a vida tua algum dia me impedirá de seguir a teu lado pelo mesmo caminho que vais.

Lentamente o teu corpo entrou em mudança. Escrevo isto e entro com toda a força por dentro de uma frase feita, sem a criticar. Está a mudar a tua cabeça. E o teu corpo com ela. Mudam ambos lenta mas inexoravelmente. E não há marcha atrás.
Aprecio o facto de a tua mudança ser algo mais lenta do que a de alguma das tuas amigas. Gente mais nova que tu já é menstruada. Ou modelou formas onde em ti ainda só há como que uma menina bem feita...
Importo-me o mesmo com isto que tu, isto é, nada. Terás o teu tempo, e isto agradeces, parece-me. Aqui - e eis um defeito mais destas avaliações - o meu património genético está a fazer a sua mossa, pois a minha puberdade foi muito tardia. Para puderes comparar com algum dos teus coleguinhas, o teu pai só mudou a voz aí pelos 17, quando adquiriu este metro e setenta e dois que define o seu Suf mais corporal que irá levar até à cova, descontando o encarquilhar das vértebras que acontecerá daqui a uns vinte anos, ou isso, é certo.

Sim, já reparei, tu achas piada aos miúdos com piada. Assim fui eu achado, muitos anos. Mas fora isso ausente, incorpóreo.
Isto quer dizer que o teu pai só teve a primeira namorada aos dezanove anos e quando já frequentava a faculdade. Serve esta história, que é realmente a verdade, como exemplo de nada. Pode-se começar a namorar aos doze, aos dezasseis, aos vinte e três. Eu comecei aos dezanove e pronto! Como aquela que viria a ser a minha primeira esposa, levada ao altar e tudo. Após cinco anos e meio de tormentoso e confuso namoro.

Aqui faço a ressalva sobre o facto de nunca te termos contado, a tua mãe e eu, que ambos casámos uma primeira vez antes de casarmos nós um com o outro. Não sei porquê, embora possa adivinhar, a tua mãe achou sempre que era cedo para contar. A verdade é que um casamento - como é óbvio - não teve nada a ver com o outro, nem acresce nem diminui. Quando em 88 casei pela 1ª vez fui ver como era, como seria, como será, enfim, já era tanto aquele namoro que também, sem coroa de louros casamentada, parecia-me desperdício. Havia também uma pressão do outro lado para sair de casa e fazer vida. E assim foi feito. Ao fim de três anos de casamento lembro-me de ter celebrado sózinho que a partir dali o divórcio seria mais fácil, porque não obrigatoriamente litigioso - a lei de então. Aos quatro anos e pouco saí de casa. Vamos aqui fazer um pequeno intervalo.

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