Cresci a não gostar de ti. E dizer isto é pouco, muito pouco, para definir a minha infância e a minha relação contigo.
Ainda me lembro quando Maio passado eu meditava sobre como iria reagir a minha filha à minha separação e o algum consolo que resultava de saber-me tão a ti unido quando tão mal nos tinhamos tratado um ao outro quando novos. Sim, teria eu oito anos quando tu tinhas a minha idade e só me lembro de discussões sobre discussões sobre discussões. Nunca estive do teu lado, como podia?... estava a ser educado para a vida pela mulher com quem discutias. Eu tomava parte e gritava também, de baixo para cima. Gritava contigo. Eu sabia que eu era a única razão para vocês continuarem juntos. As discussões aconteciam quase sempre no corredor longo da Heliodoro Salgado, pois ligava a cozinha com a escada que dava para a porta da rua. Na cozinha a minha mãe, a porta da rua por onde entravas, por onde saías pouco depois outra vez.
Saías de casa à noite, batias a porta forte, antes tinhas jantado sem uma palavra. Cheguei a odiar-te, um ódio pequeno de criança que não compreende porque afinal o destino lhe deu tão pouco pai. E não me lembro coerentemente de um gesto de carinho teu. Lembro-me aliás de como eras manso com alguns primos meus mais pequenos, e ter ciúmes, ou, pior ainda, apenas não entender, ficar surpreendido.
O castigo veio ao virar da esquina. O desemprego, o dependeres da mulher que tinhas maltratado. Esperares mais de um ano por um subsídio de desemprego, vários anos por uma reforma paupérrima apesar de quarenta anos de trabalho.
Antes tinha acontecido o maior terramoto da minha vida, lento como os humanos tremores de terra são, um lento deslizar, imparável mas quilométrico. Deixei de falar com a minha mãe. Quando? Porquê? Não me lembro, juro. Foi muito, muito antes de o meu corpo mudar. Foi muito antes de muitas coisas, coisas pelas quais devo ter decidido esperar em silêncio e sem ninguém a meu lado, e assim foi.
Tu entraste na minha vida bem mais tarde, pelos tempos da faculdade, quando se começaram a atrapalhar alguns caminhos na minha vida e, se tinha que comunicar alguma coisa em casa, era a ti que escolhia comunicar, e fazía-o com meia palavra. E tu entendias. Comecei a agradecer-te em silêncio a facilidade dada.
Separei-me pela primeira vez em noventa e três e voltei a viver contigo, convosco, durante dois anos. Não tinha horários, e não vou explicar porquê. A minha mãe estava completamente desnorteada com os acontecimentos.
Tu preparavas-me o pequeno-almoço todas as manhãs. Dizias-me para ter cuidado. Acho que foi por aqui que o nosso pacto se estabeleceu. E ficaste a ser a pessoa mais importante na minha vida, ressalvando a filha que tenho. Eu sei que ao escrever isto ignoro a mãe que ainda tenho. Mas a ela a vida abriu-lhe a cabeça aí por meados dos oitenta e ainda não voltou a fechar por completo. Esta é outra história, e para outro dia. Tu és hoje alguém com as mãos limpas, sem uma mancha de sujidade nos teus últimos vinte anos, tens mais de oitenta anos, os olhos atentos, a ideia certa. Pareces-me um homem admirável. Gostaria de envelhecer com metade da tua qualidade. E contigo estou em casa. E conheces-me como ninguém. E sou o teu médico.
Precisava que não tivesses nada grave agora. Mesmo. Vê lá se consegues afastar essa grande doença mais uns anos, por favor. A falta que antecipo vai ser enorme. Por mim, e é por mim que o peço, este teu tão fraco e pobre filho que raramente acerta uma, peço-te que fiques bem mais uns anitos.
Ainda temos tanto para não falar...
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