Porque gosto da praia?
Fui muito à praia em três períodos da minha vida.
O primeiro período foi na minha infância, com os meus pais, tios, primos, avós, etc. As boas referências não estão aqui, aqui não. Há postais, escassos postais que me são agradáveis. Outros nem por isso. Lembro melhor, com mais agrado, a estadia no Furadouro propriamente dito do que na praia do Furadouro. Brincadeiras como os meus primos num Furadouro antigo. Tempos idos de uma família alargada que eu mandei embora.
O segundo período foi o da minha adolescência, com os meus amigos de então, seguindo os rituais de estender toalha, brincar, ir à água, ver as miúdas, circular, ou então ficar pela esplanada, ir ouvir uma música a casa de… Aqui as referências também são mistas. Todos os amigos de então ainda o são, embora a muitos não lhes ponha a vista em cima há vinte e cinco anos… O misto está em que em muitos dos rituais acima ditos, eu não entrava bem, não entrava muito, ou não entrava. Não é este o momento ou o texto para enunciar as minhas limitações de então, que algumas até ainda cá estão! Mas passei óptimos bocados naquela praia e com aquela malta! Cresci com eles, vendo e aprendendo. Há flashes, pequenos vídeos, piadas memoráveis que ainda cá estão. Adiante.
O terceiro período coincidiu com uma fase chave na minha vida, e não aconteceu na praia que quase me viu nascer, nem aconteceu neste país. Durante seis meses morei ao pé de uma praia. De Fevereiro até Julho. Praia que comecei a frequentar – quê? -, em Junho para aí, e depois segui, até porque o meu trabalho naquela fase não me pedia muito. Trabalhava num hospital que olhava para a praia onde eu morava. Saia do trabalho a olhar para o meu destino. Tratava-se porém de uma praia de ria, não de mar, não havendo portanto as mesmas valências de entorno que eu tenho ultimamente encontrado nesta minha frequência da praia Azul, que -explico -, fica entre a Boa Nova e a praia do Aterro em Leça. O terceiro período foi espectacular. Também pela praia. Que acabou por ser um detalhe. Um objecto giro mais numa mesa a abarrotar deles, uma colecção inteira. Este período arrancou mal e terminou bem. O arranque passou bastante pela praia. Depois não.
Vivo onde não há silêncio. A cada minuto dezenas de carros rodeiam este apartamento, ouço-os neste preciso momento que escrevo, e já passa da meia-noite. Dizer que passam ao lado de é pouco, porque aqui a VCI encurva, e depois cede um braço para a Boavista e o Bessa e outro para a Circunvalação, Leixões e todo o Litoral Norte que se segue até Caminha. Falo de um rodear que é aquilo que eu faço quando volto donde seja para aqui. Rodeio. Em mais sentidos do que um. Não abraço. Bem queria.
Igual a praia que eu idolatro. Chego ao areal e logo o ronronar feliz do mar me envolve. Onda após onda ele entra na minha cabeça e vai removendo camadas e camadas de coisas que não interessam a ninguém mas que em nenhum outro sítio as consigo tão bem perder. Recebe o mar a ajuda adicional das crianças e das gaivotas.
Leio, paro de ler. Vou até ao mar comprovar o gelo em forma de água de que ele é feito. Pela areia húmida um rasto de sargaços, pois o mar dos mesmos não fica longe. Pedras que decidi coleccionar, roladas até à perfeição. Um pequeno grupo de rochas com dois ninhos de bivalves, mais longe outras rochas menos acessíveis estão cobertas deles, e de passaredo. Ainda anteontem admirei os seus voos rasantes à espuma que subia. Que bom é não pensar na companhia do amigo Oceano. O mar Oceano dos antigos. Daqui a dias vou perdê-lo. Para o frio, para o trabalho que volta, e voltarão as coisas inúteis a tomar conta da mim, inapelavelmente. Não importa. Sempre o som estará ali para ser ouvido, bastará buscá-lo, no fim de uma tarde, numa manhã de saída de turno. O som que reduz todos os outros à sua devida insignificância.
Poucos sons há melhores do que o silêncio. Este.



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