segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Uns amigos meus...

Uns amigos meus têm cá uma sorte...
Bom, ele é que é meu amigo, a ela conheço-a, cumprimenta-me...
Tomei café com ele ainda ontem e, da conversa tida e, também, de observações que fiz - ela trabalha comigo - e de coisas que me contaram - e eu tenho os meus informadores, aqui vai uma boa história.

O meu amigo tinha uma boa e saudável relação, já com bastantes anos em cima. Nunca tinha casado. Achava que não era preciso. Vivia com uma colega de trabalho - mesma profissão mas diferentes empresas - donde interesses similares, conversas paralelas, pouca discussão, sem dificuldades para planear os fins-de-semana, etc., etc. Ela tinha uma filha dum primeiro namorado, hoje com dezasseis, dezassete anos, com a qual o meu amigo tinha um óptimo relacionamento.
Bom, ele há dois anos conheceu alguém. Como? Vendeu-lhe um carro. Acontece que o stand fica do outro lado do trabalho dela - e meu. Por alguma razão na compra do carro, um SUV, deparou-se com algumas dificuldades. Papéis que voltavam para trás, assinaturas que o banco não reconhecia, datas complicadas, o meu amigo e ela tiveram que lidar um com o outro bastante tempo. Coisa que com o passar dos dias quase começaram a fazer ao pequeno-almoço, pois calhava que coincidiam na mesma pastelaria. Lenta mas gradualmente, aqueles pequenos-almoços passaram a ser algo mais do que isso. Pelo meio do croissant e da meia-de-leite ou do café pingado, iam comentando um ao outro o dia anterior, os eventos do dia presente, a dor de costas, o filme alugado. Até falavam de mim! Com o passar das semanas, o meu amigo reparou que na realidade, naquele pequeno espaço de vinte, trinta minutos, o seu dia ficava como que resumido, compactado, não restava mais nada para partilhar com ninguém, e assim era. Tudo o que acontecia e não tinha sido previsto ou mencionado entre duas trincadelas de croissant ou em dois sorveres de café, começava quase a ser para ele como uma peça fora de sítio.
Em três meses saiu da sua relação de anos, com a filha (dela) a referir-lhe, timidamente: "Olha, só agora?"
O meu amigo alugou um apartamento, mudou alguns hábitos na sua vida, tornou-se menos sedentário, perdeu peso, fez a barba, e depois, lentamente foi construindo a sua relação com a tal vendedora de automóveis. Que foi difícil de cozinhar. Gente nesta idade já não vai lá com duas tretas! Nem três... A situação terá estado tremida, mas eles estabilizaram uns meses depois numa solução que eu acho a ideal e afinal a adequada para estes tempos incertos, em que só viver es un arte.
Mantêm o sagrsado hábito do pequeno-almoço, às vezes acrescido do almoço no snack da esquina. Ao fim do dia segue cada um para o seu lado. Sabem bem ao que vai cada um, não têm segredos. Mas vão, e despedem-se até ao dia a seguir. Se acontece algo de excepcional telefonam-se, falam, falam. Senão, não. Igual nos fins-de-semana, onde circulam pelas respectivas famílias ou amigos ou eventos que queiram frequentar. Os interesses de um e de outro são aliás bem díspares, logo, junta-se a fuga ao inútil à plena evicção do desagradável.
De vez em quando fazem uma excepção. Dormem um no apartamento do outro, ele cozinha para ela, ela manda vir comida para ele. Consoante. Ela não gosta de cozinhar. Ele aprendeu recentemente. Dormem juntos. Vêm filmes. Falam para um mês. Estas noites acontecem para aí cada quinze dias, segundo ele me disse. Muito de vez em quando saiem de fim-de-semana. E o ano passado fizeram uma semana de férias juntos, não mais. Este ano ainda não decidiram.
Ele diz, e ela parece que afina pelo mesmo diapasão, que não acredita no amor de uma vida. Que "isto" é especial e só. Que tem quarenta e quatro anos e que este número por si "explica tudo". E que daqui a dez anos me telefona a contar afinal "como foi" e se "valeu a pena". Diz que ela faz amor muito bem, e que tem um dormir simpático. E que o "só de vez em quando" serve para assegurar que a temperatura da água esteja bem, que a lareira tenha a quantidade certa de madeira. Fora o vinho, a música... Outras vezes ele diz que nem há preparação nenhuma, nem se combina nada, só um telefonema a pedir abrigo, que se concede. Por outro lado eu noto nela uma enorme diferença desde que começou a tomar os pequenos almoços com o meu amigo. Cumprimenta-me...
Ambos acreditam em quase nada, e partilham um com o outro tudo. Ou quase. O que valha a pena. Claro que há aqui um difícil equilíbrio entre uma distância apreciável e um laço que está criado, uma dependência óbvia e assumida. Laço, armadilha. Dependência, divisão, parte de uma casa maior. E coisas há que os dividem. Dependienta, em espanhol, diz-se da criada. O risco parece-me que é evidente.
Invejo-os.

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