domingo, 29 de agosto de 2010

A prateleira do meio.

Caminho agora para a prateleira do meio. Desço, portanto.

Nem sempre viverei sozinho. Dias haverá onde serei responsável por alguém mais novo do que eu, mais concretamente alguém mais nova. Diga-se em abono da verdade que o julgar e o bom caminho da minha filha já me ultrapassa em sensatez umas quantas braças – medida náutica.

E, porém, não devemos dispensar um termómetro digital Pingo Doce, um Mini-Kit de primeiros socorros com a mesma origem, álcool etílico e pensos rápidos Hansaplast com desinfectante. A minha profissão, a vigilante maternidade anexa à criança e o pavor de que algo, mesmo que muito pequeno, lhe aconteça e a minha resposta sofra por defeito dá como insuficiente o enunciado acima. Faltam coisas.

Posta esta ressalva em texto, voltemos a restos capciosamente removidos de hotéis por onde se arrastou a minha miserável figura, a saber: um pente Sol Meliá, um kit de costura Silken. Uma esponja para sapatos GM, um pequeno sabonete Keiji que, descubro, é made in Portugal. Importa reforçar a ideia de que a remoção não foi por mim feita e que eu sou agora um beneficiário passivo da mesma, sendo pouco provável que estes itens alguma vez venham a ser utilizados. A minha revisão pessoal matinal não inclui um composto de gestos a que se possa chamar pentear. E por outro lado sou um fã recente das retoucheries, não esquecendo que tenho uma, contratada, a vir a minha casa várias vezes por semana… Acho fascinante a expressão “pequenos arranjos”, aliás quando tudo isto começou ainda pensei em pagar um café a uma das mulheres que trabalham nesses franchisings e pedir-lhes uma opinião, a ver se tudo isto se resolvia com um ou dois pequenos arranjos, na sua cara estão desenhados quilómetros de coisas por arranjar e que arranjadas foram; certamente elas podiam ter-me ajudado… Resumindo e regressando, alguém foi coleccionando e agora deixou-me parte da colecção e eu, nem bom dia nem obrigado, fica para a história mais este pequeno desarranjo, hoje um grande buraco na parede, bem maior do que um outro que me foi mal mostrado. Aceleremos.

E aproveito para passar aos sabonetes. Não uso gel de banho. Se uso, as coisas nunca correm bem. Não gosto, não me entendo com o mesmo. Acho o seu uso um desperdício de produto e de dinheiro. Alguém das minhas relações usava em tempos idos as zonas corporais pilosas – seria assim ou invento? – para fixar numa primeira abordagem uns excessos de gel que depois distribuía pelo resto do corpo. Como não me lembro de umas axilas descuidadas, algo falha neste recordatório. Isto lembra aquelas instruções onde só estão a primeira e a terceira páginas. Usará ela ainda esta mnemónica corporal? Os seios ainda serão assim de pequenos? O substantivo plural “relações” não enumera, não contabiliza, provoca um pequeno sorriso. Mas foi assim, alguém por uma vez deu-se ao trabalho de me explicar a sua técnica para o gel de banho! Sem êxito. Sabonetes temos então o Ach. Brito Maçã, o Agua Lavanda Puig e o Magno La Toja Classic, que tem a piada de ser negro e com um aroma bem mais agreste que os outros dois. Rodo, alterno, circulo. Não abdico de um sabonete no meu dia-a-dia. Vou insistir nos Ach. Brito porque é “fino”. Porque rima com este sítio onde agora moro, essas merdas. Insensível a estes pequenos estímulos na epiderme? Não, embora disfarce. Questões de encaixe, velhas questões, nunca resolvidas. Para este e para o outro lado, giro e rodo testando todos os encaixes, vejo-me sempre como se fosse uma grande e enorme peça à procura do seu lugar no grande lego do mundo, eis como vai ser difícil esta história do estar sozinho, se até a compra do mísero sabonete conta…

Logo atrás uma floresta de lâminas para barbear: levará uns anos antes que as esgote. Idem as espumas de barbear, escolhas assépticas, Sanex, Oriflame Sensitive e La Toja. Perto de La Toja fui assaltado, em La Toja tenho fotos com os meus pais, era eu como criança um caso sério não sei bem do quê. Sei hoje que La Toja é A Toxa, em galego. Como assim não vendia, o produto mantém o castelhano apelido, igual a memória familiar e o assalto. Com algum cuidado poderia levar alguma destas espumas de barbear ainda por gastar para a cova.

Finalmente um estojo de cuidados oferecido por quem já não vive, hoje incompleto e desde sempre subutilizado. Tem instrumentos que nunca utilizei e mal conheço como se utiliza. Estojo que porém contém como adição um Victorinox Swiss Card, onde pontifica… um palito de plástico (será?).

Ah, a máquina de barbear. Costuma acontecer um período do ano em que a uso, como se fosse um rash, por agora esse período do ano ainda não aconteceu. Porquê? Longos anos levo iludindo esta magna questão de ser eu basicamente um tipo preguiçoso, e nunca consegui desmentir o que por aí consta cuidando por um período que se pudesse chamar de “amplo” a minha barba.

Adiante.

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